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A história da Moda

Resenhas e aventuras de Ale Filizzola (@alefilizzola) pelo mundo do Fotografia de Moda em Londres.

Voltando no tempo, bem lá atrás, na época dos gregos e romanos, a moda era meio que uma só pra todo o mundo dito civilizado. Com boa parte do corpo em evidência como uma coisa normal, vestimentas drapeadas e sem corte eram a base de uma moda que seguiu praticamente inalterada por séculos. As mudanças de estilo aconteciam geralmente nos adereços, como jóias, penteados, perucas e maquiagem. O oposto disso, roupas com corte e costura, ainda que rústicas, eram características do mundo bárbaro. E isso nem se cogitava “desfilar” pelas ruas de Roma.

Mas as vestimentas cortadas e costuradas para melhor se adaptarem ao corpo acabaram se provando mais quentes e práticas, sobretudo pra os climas mais frios dos territórios do norte. E, quem diria, as invasões bárbaras e a queda de Roma, começaram, não pela guerra, mas pela moda. Esta nova moda acabou se estabelecendo de vez a partir da ascensão do Cristianismo. Nessa nova religião que agora regia o estado, o corpo nu, ou ainda que semi-exposto, passou a ser visto como motivo de vergonha, pecado e pudor. E nada mais adequado a estes novos valores do que assimilar a moda bárbara, que tão bem atendia à nova ordem de recato.

O tempo foi passando e, durante a idade média, pouco se variava entre o que vestia o senhor de terras e o camponês. Mesmo a distinção de gênero na moda para homes e mulheres era muito discreta. A diferença de classes se mostrava mais evidente na qualidade dos materiais e tecidos utilizados conforme o status e de acordo com o alcance de cada um.

Só por volta do século 14 o florescer do comércio entre povos e nações aqueceu a economia e fez surgir uma nova classe burguesa. E esta foi a principal responsável por difundir os novos conceitos de moda, trazidos de outras terras e reinos, juntamente com os novos tecidos, como a seda, que eram amplamente desejados e comerciados. 

Livros com conceitos e ilustrações de moda se tornaram populares pelas cortes e altas classes já no século 16. E, sem dúvida, a recém inventada nova tecnologia da prensa de Guttemberg contribuiu para a velocidade de disseminação de tendência e estilos, que mudavam cada vez mais rapidamente. Embora o rapidamente daquela época possa parecer uma eternidade, se comparada a imediatez e efemeridade da moda veiculada pela mídia de hoje.

Mais algum tempo passou e a moda então era os ricos se desfazerem do que já não era mais moda. E os beneficiários deste descarte de roupas em perfeito estado eram os seus empregados mais próximos, que deveriam sempre estar bem vestidos e a altura de servir aos seus senhores, como evidência de prosperidade dos donos daquela casa. Então, todo um mercado de roupas de segunda mão surgiu daí. E alta moda passou a ser copiada e adaptada (as vezes de forma caricata) pelas classes menos favorecidas, e com algum atraso em relação à mais nova moda, é claro.

E veio a Revolução Industrial produzindo, entre outros materials, tecidos em larga escala que, por sua vez, precisavam de grandes mercados consumidores, como os criados pelo surgimento e expansão dos grandes centros urbanos. Com a migração do campo para a cidade a proliferação de novas profissões e classes sociais, distinção já não era tão simples como a entre ricos e pobres, homens e mulheres. A moda agora precisava discernir entre os diferentes ofícios e arranjos que surgiram nas cidades.

E moda teve que acelerar ainda mais o seu ritmo para acompanhar a modernidade. Como as diferenças e a demanda extrapolaram a classe e status das pessoas, se estabeleceram estilos que melhor expressavam a individualidade. E a moda passou a também refletir mudanças de humor, estado de espírito e até mesmo períodos do dia. O guarda roupas cresceu para acomodar a variedade da moda que se diversificava em roupas esportivas, para viagens, comemorações e ocasiões especias, luto, jantares e afins. O estilo em vestir agora podia até mesmo ser caracterizado pelo simplesmente pela expressão do gosto e personalidade de cada um.

Na contra mão de tanta efervescência fashion, foi inventado o uniforme. Expressão da conformidade, burocracia e símbolo do avanço do estado sobre a vida do indivíduo.

Primeiramente adotado pelas altas patentes militares, já no início do século 18, a marinha Britânica já apresentava o uniforme para seus oficiais, enquanto as baixas patentes só passaram a usá-lo cerca de um século depois. Mesmo parecendo a antítese da moda por suprimir a personalidade, ao invés de exaltá-la, o uniforme paradoxalmente foi utilizado como um atrativo fashion para recrutar cadetes nas guerras que se seguiram, como símbolo da virilidade e glamour do soldado. E o mesmo princípio também foi usado para o sexo oposto, como no caso do uniforme cuidadosamente talhado para exaltar a vaidade feminina nas mulheres que se alistavam na marinha Americana durante a Segunda Guerra Mundial. E ainda curioso de se notar como, no mundo moderno, o uniforme também se transformou em um frequente alvo de fetiches e fantasias sexuais.

Ainda assim, até por volta do final do século 18, a moda não mudava muito de ano para ano. Até então, os últimos lançamentos e estilos circulavam em cópias em miniaturas, quase como que roupas de bonecas, dos vestidos e roupas feitos para rainhas e reis. Estas miniaturas era feitas e alardeadas pelos estilistas das realezas de então, como as produzidas por Rose Bertin, costureira e conselheira de estilo de Maria Antonieta, considerada como uma das primeiras designers de moda. Este artifício foi em seguida superado pela produção de imagens em placas de metal gravado na nova tecnologia das publicações. E esta, por sua vez, se tornou obsoleta a partir da invenção da fotografia e o avanço das mídias de massa.

Perto do início do século 19, costureiros da alta moda já faziam fama e se esforçavam por serem reconhecidos como artistas. Fashion designers se tornavam figuras de conhecimento público e criavam fortunas com suas produções exclusivas, tanto para a realeza quanto para a aristocracia. “Só o costureiro poderia se tornar um homen acima [da moda e] das distinções e disputas de classe; ele podia, por que ele era um Artista e, consequentemente, era inspirado a criar a moda, que pintores, e depois fotógrafos, depois transformaram em símbolos e a assinatura de uma época”. (Elizabeth Wilson, 2003. p.32)

No entanto, as mulheres que usam estas criações, que poderiam chocar e até mesmo indignar a sociedade, eram as atrizes e amantes, ao invés das respeitáveis damas de família. Estas mulheres mundanas, piriguetes de meados do século 19 Parisiense, não tinham nome, nem família, nem classe. Elas vinham não se sabe de onde e o seu sucesso dependia unicamente da sua personalidade e estilo. Elas eram as únicas, portanto, que poderiam se atrever a usar os estilos mais escandalosos e criar sensação. E, sem dúvida, esse era o seu objetivo: promover a elas mesmas. Finalmente, uma vez estabelecida a suntuosidade dos seus vestidos, isso também ostentava a riqueza e prosperidade dos homens que as patrocinavam. Nesse mundo voraz, beleza tornou-se um passaporte para a ascensão social. Logo, tornou-se de suma importância ostentar como se tivesse o que não tem, pois este passou a ser o melhor caminho de se conseguir depois, aquilo que se finge ter. A aparência substituiu a realidade. (Elizabeth Wilson, 2003. p.33)

Em meio a produção de roupas em massa a partir de 1910, a grande revolução da moda veio do rompimento com os velhos corselets e laços de fita, em detrimento de um estilo mais esportivo, casual e prático para as mulheres, mesmo que quase com um século de atraso em relação a quando o mesmo aconteceu com as roupas masculinas. E a designer que talvez melhor tenha catalisado esta mudança tenha sido Chanel, com um ideal estético que protagonizou o grande paradigma do século 20. O minimalismo de um estilo que subverte em si toda a idéia de moda como ostentação, e entretanto, feito dos mais finos materiais e adornado em jóias. Um novo look ágil, moderno e, de certa forma futurista, supostamente tão feminino, mas que trazia consigo algo de estranhamente masculino em si.

Resenha escrita a partir do estudo do trabalho de Elizabeth Wilson, Adorned in Dreams. 2003: The history of Fashion.

Ilustrações feitas por AleFilizzola e inspiradas em: 

  1. Fotografia de Coco Chanel e Serge, 1920,
  2. Ilustração: Changing with the times, What a welcome change it was when the ugly clothing of the previous decade was replaced by the new creation of the current times! Elizabeth Wilson, 2003. p 07.

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