Tabuleiro, Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras

Festival gastronômico de São Gonçalo do Rio das Pedras e alguns dos caminhos da Estrada Real pela Serra do Cipó em Minas Gerais.
Roteiro de Viagem: Trilha da Branca Fôrra – Estrada Real .

Cachoeira do Tabuleiro, a 3ª maior do Brasil, com 273m de queda livre. Tabuleiro, distrito de Conceição do Mato Dentro/MG

No final de semana entre 17 a 20 de maio de 2012, teve um roteiro muito bacana lá na Serra do Cipó entre Tabuleiro, Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras. Caminhos da melhor qualidade pelas bandas da Estrada Real. Foram 3 dias de passeio, 3 diferentes hospedagens, 4 cachoeiras, 2 boas caminhadas de algumas horas cada, um campo rupestre com inusitadas formações rochosas, comida caseira e um festival de tira-gosto. Pouco mais de 550 km rodados no total.

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Clique aqui para ver o

Álbum de Fotos Completo desse roteiro:

Tabuleiro – MilhoVerde – São Gonçalo do Rio Das Pedras

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O primeiro dia teve uma trilha 4×4 de dificuldade média, embora deserta e abandonada, passando por Três Barras pra chegar a Tabuleiro, distrito de Conceição do Mato Dentro, já no começo da noite. Muito frio. Pernoite no Tabuleiro Eco Hostel já próximo ao paredão da cachoeira, onde fomos bem recepcionados pelo falante Fernando. Vinho e crepe pra amaciar o espírito depois de uns enroscos pela trilha. No dia seguinte deixamos o jipe na entrada do parque e fizemos a pé a trilha até o poção no pé da Cachoeira do Tabuleiro. Como você deve saber, ela é a 3ª maior do Brasil com 273m de queda livre. 2 horas pra ir, 1h por lá e + 2h pra voltar. Valeu muito a pena.

Já no meio da tarde seguimos rumo à Milho Verde passando por Conceição do Mato Dentro e Serro. O trecho de terra entre estas duas últimas continua sendo de terra e o trânsito de caminhões e outros veículos por conta das mineradoras está muito intenso. As mineradoras dominaram a região, em Conceição todas as hospedarias estão sem vagas devido à mão de obra migrante que pernoita por lá. De Serro a Milho Verde já está tudo asfaltado. Chegamos novamente no começo da noite. Ficamos hospedados numa ótima pousada bem em frente à Igreja Matriz, a Luar do Rosário, com vista pra’quele mar de montanhas. Degustamos várias cachaças no Armazém – Bar e Espaço Cultural, curtidas nos mais variados sabores, laranja, abacaxi, canela, figo, melaço, poção mágica… Tivemos o prazer de jantar a comida caseira feita no fogão à lenha na casa da Dona Zélia. “Preta-velha” (aos politicamente chatos de plantão: uma afrodescendente de idade avançada) muito gente boa, excelente anfitriã vinda do quilombo do Baú, ótima de prosas, causos e cozinheira de mão cheia. Dica: quando for comer lá com Dona Zélia, diga que é pra exagerar a mão no querosene…

Chegando a Milho Verde
Igreja do Rosário. Milho Verde/MG
A indolência do cãotigre arrudilhado quentando sol.

Depois de tudo isso, mais umas doses no Armazém e já devidamente encomendados, a noite foi num apagão só. O café da manhã tava especial, com quase tudo feito lá menos na pousada. As proprietárias, Gaia e Margot, muito atenciosas e agradáveis, deram as dicas pra caminhada pelas atrações do lugarejo. Fizemos a caminha pelos campos de altitude da região. Atravessamos o rio e fomos conhecer o Monte dos Santos, uma formação rochosa singular que forma obeliscos naturais alinhados numa espécie de fila, que lembra a alguns uma procissão de monges. Lá também tem um portal de pedras que forma um pórtico em arcos concêntricos e escavados. Muito interessante. De lá voltamos a caminhar pelo encachoeirado do rio até as cachoeiras do Lageado, que são muito bonitas. Deu uma vontade danada de parar pra um mergulho, mas o frio, aliado ao tempo nublado, acabou desencorajando.

Serra dos Santos. Milho Verde/MG
Vistas de outro mundo. Lajeado. Milho Verde/MG
A primeira Cachoeira do Lajeado. Milho Verde/MG.
A segunda Cachoeira do Lajeado. Milho Verde/MG.

Entre Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras foi um pulo. São pouco mais de 6 km de estrada de terra entre elas. Lá estava tendo um festival de comida de buteco, o De Tira em Tira, que era o ponto alto da programação para este fim de semana. Ficamos hospedados na Pousada Pequi, localizada num sítio um pouco afastado do centro da cidade. Muito agradável e bem decorada, embora a proprietária – envolvida com os preparativos do festival – não estivesse de muito bom humor por aqueles dias. Malas descarregadas, roteiro de butecos/tiragostos concorrentes em mãos, e seguimos direto pra um que ficava logo na entrada da cidade pra’modo’de dar início aos procedimentos oficiais da romaria.

Você está aqui! Marco da Estrada Real. São Gonçalo do Rio das Pedras/MG.
Andando por São Gonçalo do Rio das Pedras/MG.

No Bar Recanto Real, o tiragosto era o Quarteto Fantástico – Linguiça, carne de sol, torresmo e mandioca com creme de jiló e manteiga de garrafa. Como era o primeiro fim de semana do Festival de Tira em Tira, que vai de 18 de maio a 02 de junho de 2012, a maioria dos estabelecimentos estavam meio desprevenidos e os pratos eram feitos literalmente na hora. Quando nosso Quarteto havia acabado de chegar, chegam também pela estrada os amigos que estávamos aguardando e dali seguimos juntos em procissão. Esse primeiro tira gosto estava muito bom, com destaque para o creme de jiló feito a base de creme de leite, leite, manteiga e ervas.

Os bares e seus tiragostos concorrentes devidamente autografados pelos artistas anfitriões. III Festival de Tira-Gosto de Tira em Tira (2012). São Gonçalo do Rio das Pedras/MG


A segunda parada foi no Bar do Pescoço para o Bacana – Carne na fumaça e torresmo com mandioca cozida em ervas. O Pescoço é uma figura e o bar dele, como o tiragosto, é bacana. Não foi surpreendente, mas ‘teve bom. O destaque aqui foi para os alhos fritos inteiros que acompanhavam a carne e para um vidro de pimenta comari curtida no suco de limão!

O terceiro pouso deveria ter sido no Marcinho, mas lá chegando, por volta das 19h, topamos com ele já de saída para cuidar do som no Bar Arco Iris. Assim sendo o Gerimum (com “G” mesmo) – músculo embriagado na moranga – ficou só na vontade.

Jovelina comandando a cozinha no Bar do Tião. Eleita a melhor pedida do festival na nossa opinião.

A um quarteirão dali, fomos muito bem recebidos no Bar do Tião, onde o burro Diamante montava guarda na varanda. Fomos convidados a entrar para a cozinha e nos acomodamos lá no entorno do fogão a lenha tomando umas pingas com raiz, enquanto a mulher dele, a Jovelina, preparava ali na hora o Trem que Treme – Asinha de coxa de frango assada com creme de inhame. Conversa vai e conversa vem, nesse meio tempo fomos apresentados a outras iguarias enquanto a nossa não ficava pronta. Moela picada a palito e empada de alho poro, tudo muito gostoso. Não botava muita fé no prato principal, mas o creme de inhame ficou um espetáculo!

A romaria do dia findou no Bar Arco Íris com a Língua Caipira – língua de boi ao molho com torradinhas e um show de sanfona, violão e voz, no melhor repertório de cabaré. Não é que o tiragosto estivesse ruim, a língua estava bem cozida, mas tava meio sem graça, sem tempero e meio frio. Assistimos ao começo do espetáculo e passamos a régua.

De volta à Pousada Pequi, resolvemos tomar um vinho ‘quentando fogo ao redor do fogão à lenha. Tava um frio danado. Esse finalzinho foi legal, mas poderia ter sido mais agradável não fosse a tosqueira mal contida da proprietária que acabou nos deixando constrangidos de estarmos ali. Poderia ter sido mais receptiva, esforçado-se um pouco mais em nos receber e atender, ao invés de insistir naquele ar de que estávamos atrapalhando ou incomodando. O curioso é que ela havia sido muito bem referenciada por outras pessoas. Pena, pois parece que ali ela não estava n’um dia bom. Pra não prolongar o constrangimento ainda mais, terminamos a última taça no quarto e fomos dormir. No dia seguinte, o café da manhã teve bom. Achei muito curioso (e oportuno) servirem suco de boldo…

Vontade de não fazer nada…

Como acordamos relativamente cedo, fomos conhecer algumas outras atrações da cidade antes de reiniciarmos as atividades tiragosteiras do dia. Estivemos a conhecer a Cachoeira do Pacú, que fica bem ao lado da ponte, bem no meio da cidade. A queda é um paredão de dar medo. Ao longo dela há canaletas e desvios de água para mover moinhos d’água com moenda de roda de pedra. Há vários deles ao longo da descida pela encosta, a maioria desativada e já virando ruínas. Acho genial essa tecnologia, pena que esse conhecimento e prática estejam desaparecendo da sabedoria popular. Seguimos uma trilha a pé até lá pela metade da descida. Como o pessoal pediu arrego, não fomos até a base da cachoeira para poder apreciá-la. A vegetação pela beira do barranco é muito alta e não dá pra ver a queda sem antes descer até o fim. Fica pra próxima.

Moinho D’água. Cachoeira do Pacú. São Gonçalo do Rio das Pedras/MG.

De lá visitamos o centro de artesanato onde, dentre outros produtos, há tecidos feitos em teares manuais situados lá mesmo no meio do salão, uma linha de cosméticos produzida por uma associação de mulheres que utiliza produtos da região, como Macaúba e Mutamba, e cestarias feitas com um tipo de capim local muito assemelhado ao capim dourado. As crianças se encantaram com uma peteca primitiva feita de palha de bananeira e penas de galinha. Diversão garantida.

Naquela altura, já pelo meio dia, fomos para o bar do Ademil na praça da matriz, onde deveria acontecer um encontro de bandas da região. Tanto o bar como a praça são muito aprazíveis. As ruas estavam fechadas nos arredores e paramos a alguns metros de lá. Acabou sendo uma oportunidade do acaso para conhecermos uma das donas da Pousada 5 Amigos. Uma “alemoa” que resolveu morar por lá tempos atrás e onde levava os filhos na infância. Filhos criados e com diferentes rumos na vida, ela resolveu transformar a imensa propriedade numa pousada, que parece ser uma ótima opção de hospedagem.

O tiragosto do Ademil era o UAI – costelinha de porco e batatinhas ao molho de marmelo. Gostoso, mas sem causar muita emoção. O bar-armazém-sinuca dele acabou por emocionar mais. Ficamos por ali acompanhando o movimento dos turistas, dos locais, dos integrantes das bandas de fanfarra – que disputavam orquestrados temas populares – por um tempo e resolvemos provar um último prato antes de pegar o caminho de volta pra BH. Mudamos de pouso para a Pizzaria Quero Mais onde era servido o Quitute – Almôndega suína com purê de mandioca e calda de rapadura. Assim como o anterior, gostoso, mas podia ser melhor.

Agora, se for pra falar de gosto, o que deu gosto mesmo foi ver a organização social do povo lá de São Gonçalo do Rio das Pedras. Era comum ver os donos dos bares concorrentes prestigiando e ajudando uns aos outros. Tudo no melhor clima de parceria e bom relacionamento entre os “rivais”. Da riqueza do garimpo de outros tempos, ficaram casarões e igrejas incrustadas na serra. O povoado hoje parece bem pequeno, os jovens – segundo ficamos sabendo lá na Pizzaria – vão cada vez mais cedo estudar fora e arranjar emprego noutras cidades maiores.  Ainda assim, São Gonçalo reage e se organiza nas mais diversas associações produtivas, artesanato, rendas, bordados, doces, perfumaria, tecelagem… e apresenta eventos variados ao longo de todo o ano. O de-Tira-em-Tira foi um deles, mas também tem o da Galinha Caipira e por aí vai. Estes eventos e atitudes aquecem a economia local e dão novo sopro de vida à cidade. As pousadas estavam lotadas de gente das Gerais, do Rio, de São Paulo. A economia gira, a identidade regional aflora, se renova e fortalece através do turismo. Estes rearranjos sociais e econômicos lançam novos olhares sobre os horizontes de sobrevivência e a perpetuação daquela gente, suas tradições e costumes. É ou não é um grande exemplo de sustentabilidade aplicada?

Lá onde o tempo passa diferente. São Gonçalo do Rio das Pedras/MG.

E tudo isso é só uma fraçãozinha do que fiquei sabendo daquelas bandas. Ouvi dizer ainda que lá há concursos das donas de casa que tem as panelas mais ariadas, das receitas mais prendadas, das cozinhas mais limpas, dos fogões à lenha mais bonitos e brancos (pintados com uma espécie de tinta feita a partir de uma argila local), dos enfeites florais de sala feitos a partir de recortes e dobraduras de papel (tradição regional antiga que nada tem a ver com o origami oriental)…

Com o sentimento de dever cumprido e a vontade de ficar por mais alguns dias, pesarosamente juntamos as tralhas e arribamos de volta pra casa pelo mesmo caminho que viemos.

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11 comentários em “Tabuleiro, Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras”

    1. Obrigado! Pode deixar que da próxima vez em que estivermos por estas bandas faremos uma visita, sim. Talvez ainda este ano. Fiquei sabendo do festival de galinha caipira que acontece em outubro (?) e pareceu bem interessante. Aliás, gostei muito de ver a organização de vocês aí da região e o esforço em promover eventos que movimentam a cultura e a economia local, sem falar das associações de artesãos e afins. O clima de colaboração entre a comunidade ficou muito claro para nós. Ao que pude ver e pelas pousadas lotadas, a iniciativa está dando muito certo. Parabéns!

      Esta matéria ainda está inacabada. Nos próximos dias ainda irei acrescentar fotos, mapas e algumas informações extras.

      Abraço

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  1. Parabéns Alessandro, vou me aproveitar de seus relatos quando estiver de passagem por essas bandas. Saio daqui dia 16 para 17 de setembro rumo a Diamantina. Devo chegar por volta do dia 18 em Diamantina e aí começo a descer pela ER. Abraço

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  2. Parabéns pelo relato.
    SGRP é realmente um lugar maravilhoso de visitar.
    Só uma pequena correção o nome da cachoeira que fica no centro da cidade se chama Cachoeira do Comércio. A Cachoeira do Pacú e outra bem próxima mas não dentro da cidade.
    Abraço

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  3. PARABENS PELO RELATO, CONHEÇO E ADORO A REGIAO, PRINCIPALMENTE SAO GONÇALO(ADORO O BAR DO PESCOÇO),ALUGUEL UMA CASA NESTA CIDADE PERTO DA MERCEARIA DO ADEMIL, PARA MINHA FILHA DURANTE 8 MESES, FAZER UMA MATERIA PARA FACUDADE, E APROVEITEI MTO, SEMPRE ESTOU INDO LA. ABS, MTO OBRIGADO. STAN

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