4×4 trilha solidária Belo Vale/MG

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Neste último fim de semana, sábado, dia 07, nos reunimos para fazer uma trilha um pouco diferente, fizemos uma incursão solidária para ajudar às vitimas das fortes chuvas na região da Serra da Moeda, próxima a Belo Horizonte/MG, reafirmado alguns princípios humanitários e também de sustentabilidade.

Ainda há previsão de muita chuva pela frente e para os que querem colaborar, não é necessária grande articulação. Basta entrar em contato com a Defesa Civil ou a Cruz Vermelha e se informar sobre quais as localidades mais necessitadas e rumar pra lá. Donativos de mantimentos, água potável, roupas, produtos higiênicos, e de limpeza são bem vindos, mas não são obrigatórios. Por vezes o voluntariado já é um grande e suficiente auxílio. Chegando aos centros de assistência de cada cidade, os donativos são recebidos e reorganizados em Kits de cestas básicas e produtos de higiene e limpeza, as tarefas e roteiros são distribuídos aos voluntários conforme as premências do momento.

Sobre a questão da sustentabilidade, segundo a teoria da Matriz Territorial de Sustentabilidade (POETA), um dos critérios do sustentável está na organização social. Neste ponto é notória a mobilização das pessoas em torno de causas humanitárias. A coisa toda se viabiliza quase que do nada a partir do interesse, articulação e motivação do povo brasileiro. Falta-nos descobrir como engajar a todos e transportar estes mesmos princípios para o envolvimento da população em outras áreas tais como a política, as associações produtivas, associações de bairro e por aí vai. A organização social faz com que comunidades zelem por seus interesses, resolvam seus conflitos e cuidem para manutenção da qualidade de vida e a prosperidade das regiões onde estejam inseridas.

estradas viraram grandes atoleiros
a terra das estradas transformada em lama após o recuo do Rio Paraopeba

Muitas das localidades mais afetas são parte do nosso quintal de trilhas aqui da capital. São justamente aquelas onde nos embrenhamos com certa regularidade pra espairecer do ambiente urbano. Entre elas estão Nova Lima, Rapozos, Rio Acima, Sabará, Moeda, Brumadinho. E isto sem falar da perícia em terrenos difíceis decorrente destas práticas e também do preparo dos veículos todo terreno. Daí nada mais natural do que estes mesmos jipeiros que lá freqüentam lancem mão dos seus momentos de lazer e se mobilizem para ajudar a estas comunidades nestes momentos de necessidade. A grata surpresa veio da constatação do grande número de pessoas dispostas, veículos disponibilizados e da quantidade de donativos arrecadados. Dentre os presentes destacaram-se os grupos Kriptonita, Comando da Madrugada, Família Petrillo, Bicho do Mato, Grupo Artha e Dissidentes.

distribuição de cestas básicas e kits de limpeza e higiene

Nosso ponto de encontro foi no “Topo do Mundo”, lugar privilegiado no alto da Serra da Moeda ao lado da BR040 de onde a magnífica vista das montanhas não dava a idéia correta do assolamento às margens do Rio Paraopeba oculto por aquele mar de montanhas. Após a reunião de um grande número de voluntários, nos dividimos em dois comboios. Um seguiu juntamente com uma equipe de reportagem para o atendimento direto a algumas comunidades através de suas associações locais. O outro, no qual segui, rumou para Brumadinho, centro de uma das localidades mais afetadas, onde nos reuniríamos com mais alguns colegas na sede da Defesa Civil. Pelo caminho encontramos ainda outra turma de jipeiros em Aranhas e formamos uma grande coluna com mais de 30 carros até o nosso destino.

igreja pelo caminho passando por Rio Manso (?)

Na Defesa Civil de Brumadinho veio a informação de já haver donativos suficientes, que as áreas afetadas já estariam devidamente atendidas e o número de voluntários e donativos continuava aumentando a todo instante. De acordo com um amigo, nessa hora ficamos todos com cara de “cachorro que caiu da mudança”, perdidos e frustrados sem saber o que fazer. Até que nos indicaram a cidade de Belo Vale que ainda se encontrava em situação bastante precária. Rumamos pra lá. Neste borbotão do voluntariado fiquei feliz de ver que ali estavam caras conhecidas e que mesmo sem combinarmos nada ali, nos encontrávamos nesta situação de boa vontade.

centro improvisado de arrecadação e comando da Cruz Vermelha em Belo Vale

Seguimos os cerca de 50km entre Brumadinho e Belo Vale por trilhas de terra rasgando o interior. Pelo caminho algum barro, deslizamentos de encostas e árvores caídas, mas nada que bloqueasse irremediavelmente o caminho. No centro de Belo Vale entregamos nossos donativos na escola ao lado da igreja que estava abrigando o centro de assistência da Cruz Vermelha. Lá nos abastecemos com kits de mantimentos e higiene já devidamente montados e embalados. Fomos divididos em grupos para o atendimento de diferentes áreas. Cada grupo levando um guia local para que chegássemos a todas as famílias necessitadas. Na minha chave, fui eu o responsável por encabeçar a caravana levando a nossa guia Irani.  A comunicação entre os carros era feita pelo rádio e a falta de padronização de freqüências atrapalhou um pouco. Majoritariamente estávamos modulando em 144.400 (PY) e 462.700 (canal 21/0 no talkabout).

estradas submersas
vias transformadas em canais

As casas às margens do rio, até o dia anterior, estavam quase que totalmente submersas e tomadas pelo barro. Na tarde daquele sábado o nível das águas já recuara bastante, o suficiente para que a pequena ponte fosse avistada, embora uma grossa camada de lama e alagamentos esparsos ainda permanecessem ilhando alguns pontos. Tivemos que rebocar alguns carros de passeio atolados que obstruíam a estrada e também um pequeno caminhão que havia se desgovernado e despencado barranco abaixo. Guinchos e cintas tiveram que ser usados. Jipes sempre andando em pares para que um pudesse prestar socorro ao outro no caso de necessidade. Fora isto, sem maiores dificuldades. São Pedro cooperou muito ao mandar apenas algumas mangas de chuva, caso contrário esta história poderia ser bem diferente.

famílias isoladas pelas chuvas recebem donativos

A entrega dos donativos foi relativamente tranqüila, embora a coordenação de todos os jipes tenha ficado um pouco confusa. Valeu – e muito – presenciar a alegria daquelas pessoas ao verem que toda a movimentação era pra eles. Muitos não se davam conta e olhavam desconfiados para’quela quantidade de jipeiros andando por ali e irrompiam em sorrisos incrédulos mal disfarçados entre as mãos encabuladas que tentavam, em vão, encobri-los.

animais desgarrados procuram os lugares mais altos para escapar das águas

Em meio a toda aquela água transbordada fora da caixa, não deixava de ser chocante quando nos pediam água pra beber. Coisa tão banalizada nas mentes de quem vem da cidade grande, a água potável havia se tornado raridade. Por outro lado, encantava sempre que nesta precariedade toda, muitas das famílias atendidas ainda encontravam simpatia de sobra pra nos convidar – e fazer questão – de que ficássemos pra “tomar um café”. Convite que recusávamos gentilmente sob a alegação de que ainda tínhamos muita gente pra visitar. Numa destas também acabamos sendo presenteados com uma cachaça.

nível da enchente registrado na parede do quarto
casa marcada pela inundação, apenas a cumieira do telhado ficou de fora

Um fato um pouco mais curioso a respeito do comportamento humano foi o de uma família ilhada que ficava ao lado da ponte num dos piores trechos do alagamento. A casa ficava em um pé de morro, recuada quase nada mais acima do nível da água e ali em pé estavam uma senhora já de certa idade e algumas adolescentes e crianças. A porteira estava trancada e parcialmente submersa no cento do alagado. Sinalizamos a ela e oferecemos as cestas. Ela queria que déssemos a volta com os jipes por detrás da serra pra chegar até ela por outra rota. O caminho era inviável e nos tomaria o tempo que tínhamos pra terminar de distribuir os donativos as outras famílias. Então ela quis que fôssemos a pé por dentro d’água pra levar os kits até lá. Perguntamos se não poderíamos deixar as cestas com a vizinha, por onde acabáramos de passar e havia uma trilha seca que ligava os terrenos. Nesse momento ela xingou, praguejou e disse que assim não queria, preferia passar necessidade a buscar com a vizinha. Deu de costas e já ia entrando na casa enquanto desferia mais alguns impropérios. Foi quando conseguimos argumentar com uma das adolescentes que se dispôs a abrir a porteira para que chegássemos até lá. A casa era bem desprovida e toda aquela gente certamente teria nas cestas um bom alento, ainda assim rixas e orgulhos do passado não cederam frente às adversidades naquele momento.

3 guinchos para resgatar o caminhão caido na ribanceira

Seguramente nem tudo também são flores pro lado da galera 4×4. O voluntariado sempre forma grupos heterogêneos onde um ou outro podem ter idéias equivocadas sobre as ações ou mesmo se comportarem de maneira inadequada frente às comunidades atendidas e as ações executadas. Felizmente, até onde pude presenciar, nenhum desvio mais grave aconteceu no nosso grupo e acabaram prevalecendo as intenções e atuações positivas.

Na volta paramos numa bica d’água já na estrada de moeda pra tirar o excesso de barro das mãos, das botas e curtir a bela vista daquele fim de tarde tão gratificante. Ali logo em frente ainda teve mais um bônus! Passamos por uma turma de jipeiros de Itabirito que estava assando uma carne no alto de um mirante de onde se avistava o infinito ondulante de um lençol formado por montanhas, além de partes de carros desmanchadas abandonadas (desovadas) ribanceira abaixo. Dali se avistava as chuvas que caiam isoladas por toda a região. Paramos para cumprimentá-los e fomos muito bem recebidos. Não poderia ser melhor!

horizonte na Serra da Moeda
parada na bica pra limpar o excesso de barro
confraternização com os jipeiros de Itabirito
” atrás de montanha tem montanha”
desmanche ribanceira abaixo

Já pegando a BR040 com a noite caída, o dilúvio que se segurara arribado durante todo o dia finalmente se precipitou. Cuidado na direção até em casa e tudo bem.

Fotos: Zizzi Soares

Seleção e tratamento de imagens: alefilizzola

Uma matéria veiculada na mídia sobre a ação dos jipeiros:

http://www.alterosa.com.br/html/noticia_interna,id_sessao=7&id_noticia=67991/noticia_interna.shtml

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9 comentários em “4×4 trilha solidária Belo Vale/MG”

  1. Alessandro,
    Participar da ação foi importante. Disseminar a ação com a qualidade que voce fez é muito mais. Assim teremos cada vez mais jipeiros em dias como aquele. Parabéns.

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    1. Valeu, Malco!
      Parabéns a você também, que teve a iniciativa do encontro e da divulgação.
      E também a todos os companheiros que participaram ou colaboraram de alguma forma!
      Tomara que, com o esforço de todos, a cada nova ação tenhamos ainda mais gente envolvida.

      abs

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  2. Parabéns pela descrição tão rica e bem-humorada, que só enriqueceu a essência desa ação tão importante nos dias de hoje. Um mundo onde, infelizmente, sentimentos como o egoismo e a individialidade tem prevalecido a solidariedade. As fotos ajudaram a complementar a imaginação despertada pela leitura. Ficou excelente! Deu gosto de ler! Parabens a toda a equipe!

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