Caraíva 4×4 – Trilha do Descobrimento

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Durante o Carnaval deste ano (2011), rumamos para Caraíva/BA, na contra-mão dos trios elétricos. Enquanto a chuva torrencial alagava Porto Seguro e Belo Horizonte e um tsunami engolia o Japão, tivemos muito sol e tempo bom naquele pedacinho do extremo sul baiano. Combinamos de nos encontrarmos lá para uma trilha, eu de BH, o Trippa de Salvador e o Rafael de Porto Seguro.

Aproveitei a oportunidade pra experimentar um caminho alternativo que ainda não conhecia, evitando a BR381 e indo por Ouro Preto, Ponte Nova, Rio Casca e Caratinga até Governador Valadares. O caminho não tem muita coisa de interessante, vale o destaque para a travessia por dentro de Ouro Preto e algumas vistas ao mar de montanhas mineiro, no mais é pouco movimentado, repleto de curvas, sem locais para ultrapassagem e meio chato. Aumenta em pouco mais de 100km em relação ao trajeto convencional passando por João Monlevade e Ipatinga. Fiquei sabendo depois que esta rota nos poupou de ficar um bom tempo parados na estrada devido a um acidente que bloqueou o transito por algumas horas na BR381.

álbum de fotos: Caraíva 4×4 – Trilha do Descobrimento – carnaval 2011

Os 30km de terra até Caraíva foram tranqüilos. Estrada patrolada, seca e sem qualquer vestígio dos atoleiros que assustaram muita gente no réveillon. Lá chegando, paramos os carros no estacionamento do Kel, como de costume. Enquanto eu fiquei próximo ao campo de futebol, o Trippa ficou com a família de frente pro mar numa casa um pouco mais afastada e já dentro da reserva. O Rafael estava com visitas e também negócios em Porto. Por isto, só fomos nos encontrar nos dias finais.

igreja no centro histórico de Arraial D’ajuda/BA

Primeiro fomos eu e o Trippa para Arraial D’ajuda, onde demos umas voltas pelo centro histórico, almoçamos e entramos em contato com o Rafael. Ele não poderia nos encontrar naquele dia, mas indicou um caminho por trilhas até o Outeiro das Brisas. Esta trilha, ficamos sabendo depois, era a antiga estrada de Trancoso a Caraíva que foi abandonada com o traçado do novo caminho há mais de 10 anos. Atualmente não há mais ponte cruzando o Rio dos Frades e um condomínio fechado e uma fazenda de búfalos interromperam um bom trecho do caminho.

Guiados pelas dicas do Rafael, chegamos ao primeiro obstáculo: a portaria do condomínio em Trancoso. Gastamos mais de meia hora ali argumentando com o porteiro que não queria nos deixar passar por nada. Ele fica ali dizendo que não tinha mais caminho, que o condomínio era particular, que não tinha mais ponte, que depois era uma fazenda e não tinha como atravessar o rio bla, bla, bla… Com muita argumentação, relutante, ele finalmente nos deixou passar. Seguimos a estrada de terra dentro do condomínio, até que ele foi acabando e virando tudo mato, até que finalmente se tornou uma picada de areia fofa. Por fim, chegamos ao Rio dos Frades próximo a uma comunidade indígena e há alguns quilômetros antes da ponte nova e mais próximo da foz.

Rio dos Frades – Itaporanga/BA – gps: S16 39.365 W39 06.549

Nessa hora, o dia já ia morrendo naquele clarão vermelho por sobre as águas e a mata. Alguns índios que estavam ali por perto conversaram conosco dizendo que a maré tava cheia e que não tinha como passar, que era muito fundo, que não tinha mais ponte bla, bla, bla… Sem perder mais tempo o Trippa foi logo entrando a pé dentro do rio pra conferir a profundidade e a textura do fundo. Lado a lado fomos atravessando até a outra margem e voltamos. O fundo era na maior parte areia e um pouco de lama e sedimentos, mas sem obstáculos. A profundidade pouco passava da linha da cintura. Dava pra passar numa boa.

os observadores incrédulos
travessia pelo Rio dos Frades
submergindo na maré alta
nas palavras do próprio: “a trippa mergulhadora”

Os índios não acreditaram quando começamos a retirar as coisas pra não molhar na parte de baixo dos carros. As pessoas de pouca fé preferiram atravessar de canoa mesmo. E sem maiores delongas, fui logo entrando na água. Na parte final vinha o canal com a maior profundidade. O Troller quis boiar, mas não chegou a perder a tração por completo. Eu queria atravessar já com as portas abertas pra água entrar, mas o Trippa achou que não ia precisar e ele tinha razão.  A minha navegadora segurava bravamente a câmera e a bolsa acima da cabeça, provavelmente prevendo que o carro de barco ia virar submarino. Já do outro lado, foi só abrir os tampões e as portas pra água sair aos borbotões. Logo depois foi a vez do 3.0 do Trippa atravessar igualmente tranqüilo. 2.8 e 3.0 molhados e intactos na outra margem, sem ventuinhas quebradas ou qualquer outro dano, que não uma lâmpada de farol, que mais parecia um aquário, queimada. Dalí, com a noite já se anunciando, seguimos direto pra Caraíva onde terminamos o dia em pizza na beira do rio no restaurante do francês.

No dia seguinte, quarta feira de cinzas, já era hora da família Trippa se despedir e fazer o caminho de volta à Salvador. Acompanhei-o pela estrada até o entroncamento de Trancoso. De lá nos despedimos e segui para o quadrado onde encontraria com o Rafael para fazermos uma prévia da Quadri Aventura do Descobrimento. Em parceria com a Prefeitura de Porto Seguro, a Estrada Real Adventure, empresa do Rafael, mapeou e está organizando um passeio de quadriciclos pelas trilhas da rota do descobrimento do Brasil, partindo de Porto Seguro e indo até o Monte Pascoal. O evento acontecerá entre os dias 21 e 23 de abril deste ano. Pra quem quiser maiores informações pode entrar em contato diretamente com o Rafael (31) 7818-3574 | (73) 9998-1900 | astrorei@hotmail.com | http://www.youtube.com/watch?v=-vSsvrYiZEY

praia de Itaquena – Trancoso/BA

O começo da trilha foi basicamente o que tínhamos feito no dia anterior, com o detalhe de que, devidamente credenciado, o Rafael liberou a nossa passagem pelo condomínio bem mais facilmente. Ao invés de irmos direto para o Rio dos Frades, entramos pela praia virgem de Itaquena e seguimos para a Comunidade Indígena de Gravatá, onde fomos muito bem recebidos. A passagem pelo rio fica ali perto e os indiozinhos nos acompanharam fazendo a maior festa. Um deles, que era fã numero 1 do Rafael e tinha ficado falando dele e do passeio dos quadriciclos no dia anterior, veio novamente comentar: “ontem de noite teve dois carros desses que passaram aqui também, a maré tava cheia, mas eles passaram mesmo assim” rsrsrsrs… Desta vez, de dia e com a maré baixa, não chegou nem a entrar água dentro do carro. Depois aproveitamos pra tomar um banho de água doce no rio e tirar o sal do banho de mar em Itaquena.

atravessando o Rio dos Frades na maré baixa

Dalí seguimos por estradas de terra secundárias por entre fazendas até a entrada de Curuípe. Então, pegamos um desvio da rota usual e fomos sair bem no começo da praia, junto aos reservados restaurantes Tailandês e Japonês na praia do Espelho. O Rafael, além de muito gente boa, também é muito informado e entrosado na região. Foi um almoço japonês da melhor qualidade, com vista para as falésias e o mar, e proseando sobre as histórias daqueles arredores. Terminamos o dia em Caraíva, no samba de despedida do verão que rolou no Boteco do Pará.

De Prado a Porto Seguro há muitas praias que merecem ser conhecidas, visitadas e preservadas, assim como também há diversas trilhas por se percorrer. A estrada apresenta um hiato dentro dos limites do Parque Nacional de Monte Pascoal, entre Caraíva e Corumbau, mas a Aldeia Indígena de Barra Velha já recebe os visitantes de carro e também permitem a entrada destes dentro da reserva, desde que devidamente assistidos. Seja de 4×4 ou a pé, o importante é sempre ter em mente a preservação destas praias e comunidades, tão antigas quanto a descoberta do próprio Brasil, mas paradoxalmente ainda desconhecidas dos próprios brasileiros. O turismo responsável apresenta-se como uma adequada alavanca econômica para a região, promovendo a transferência de renda para a população e ajudando a preservar o meio-ambiente.

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